sexta-feira, julho 29, 2005

A Ascensão de Hitler I

* Dividi o trabalho completo em dois, para melhor visualização. Amanha postarei a segunda parte.

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As Origens
É freqüente o questionamento de muitos estudiosos da Segunda Guerra sobre como Hitler, com todas as suas características, conseguiu chegar ao posto máximo da Alemanha em aproximadamente 10 anos de atividade política, suplantando exímios e competentes políticos. É uma pergunta extremamente válida, uma vez que Hitler conseguiu se sobressair em um cipoal de pequenos partidos com plataformas que não diferiam muito da sua. Para compreender corretamente essa ascensão meteórica, devemos entender a situação alemã do pós-guerra, seu sistema político e eleitoral, os demais partidos alemães, a personalidade de Hitler e a influência externa na Alemanha.

A carreira política de Hitler começou quando ele foi designado para espionar um partido socialista, o Partido dos Trabalhadores Alemães. Ainda ligado ao exército, Hitler recebia essas funções de uma espécie de política secreta alemã. Á essa época, o Exército estava agindo como um repressor policial tanto de manifestações quanto de agremiações políticas que ameaçassem, de alguma maneira, a recém estabelecida República de Weimar. Em 12 de Setembro de 1919, Hitler foi ao encontro do partido que deveria espionar e no fim acabou fazendo um pequeno discurso em prol da união da Alemanha. Seu discurso surpreendeu os líderes do pequeno partido, e dessa maneira ele foi cooptado a participar dessas atividades políticas. Desligado definitivamente do exército, em 1920, Hitler passou a dedicar-se exclusivamente ás atividades políticas nesse mesmo partido que ele deveria espionar. Não demorou muito para ele, Hitler, tornar-se líder partidário. Suas medidas foram mudar o nome para Partido Nacional-Socialista Alemão, ou NSDAP (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), conhecido também como Partido Nazista. Sobre seu comando, o partido começou a crescer gradualmente. Embora as habilidades pessoais de Hitler fossem bem acima da média, ele encontrava-se em um ambiente mais que propicio para que suas idéias fossem aceitas.

De 1919 a 1923, a Alemanha viveu períodos mais que atribulados. Terminada a I Guerra, estabeleceu-se uma guerra civil entre várias facções políticas alemãs, que só acabou em setembro de 1919, ou seja, quase um ano após o fim da Primeira Guerra Mundial. Nesse período, a situação política alemã foi extremamente delicada e só começou a se estabilizar em 1923. Até então, muitos conflitos internos iriam se suceder. O primeiro chanceler da República de Weimar, o Social-Democrata Philipp Scheidemann, teve sua autoridade posta em questionamento várias vezes, quando ocorreram diversas revoltas ao longo da Alemanha, embora todas elas tenham sido debeladas. O ápice da crise ocorreu em 1923, quando o governo alemão não foi capaz de pagar as reparações de Guerra. Em resposta, tropas Francesas e Belgas ocuparam o Rühr, privando a Alemanha de uma valiosa área industrial. A crise econômica agravou-se com a hiperinflação, quando o Marco alemão desvalorizou-se totalmente frente ao dólar. Como o clima político alemão já não era propício à estabilidade, esse novo abalo serviu de impulso para novas revoltas, dentre elas o Putsch de Munique, liderado por Hitler. Nesse episódio, Hitler comandou uma vergonhosa tentativa de tomar o poder a força. Muito influenciado por Mussolini, que recém havia conquistado Roma numa marcha militar, Hitler tencionava fazer o mesmo em direção a Weimar. Ao contrário da Itália, reinava, na Alemanha, apesar de todos os abalos políticos, um forte sentimento de institucionalidade. Apesar de todos os problemas e crises, os alemães não iriam aceitar a tomada de poder dessa forma. Segundo alguns historiadores, foi no fracasso do Putsch que Hitler percebeu que só chegaria ao poder por meios legítimos. Ao sair da cadeia, foi nessa linha que ele melhor se sobressaiu, pois seus dotes de oratória e eloqüência davam-lhe vantagens em relação aos outros políticos.

O avanço pelas urnas
O Partido Nazista, nas suas idéias e no seu líder, era relativamente atraente para os cidadãos alemães desiludidos com a situação de seu país. No entanto, até 1929, não conseguiu crescer eleitoralmente. Nas eleições para o Reichstag de quatro de maio de 1924, os nazistas obtiveram algo em torno de dois milhões de votos (6,55% do total), conquistando 32 cadeiras. Nas eleições de sete de dezembro do mesmo ano, na segunda eleição para o Parlamento, os nazistas obtiveram somente 900 mil votos (3% do total), conquistando apenas 14 cadeiras. Nessas eleições, se comparado aos grandes partidos, o percentual nazista torna-se pífio. Mesmo em relação aos partidos menores alemães, como Partido Bávaro Alemão (19 cadeiras), Partido Popular Alemão (51 cadeiras), o percentual nacional-socialista ainda era inexpressivo. Nas eleições para o Reichstag de 1928, o desempenho alemão foi mais sofrível, obtendo apenas 810 mil votos (2,63% do total), conquistando apenas 12 cadeiras.

A maior parte das críticas á ascensão nazista dá-se contra a República de Weimar, pois ela não fora eficiente no intuito de aplacar a instabilidade política alemã. Isso é incorreto, pois ao longo da década de 20 a situação tanto política quanto econômica da Alemanha estava melhorando drasticamente. Desde 1923, a Alemanha vinha pagando, com a ajuda do Plano Dawes, todas as dívidas. No campo político, os partidos de idéias radicais estavam perdendo espaço para agremiações políticas mais sérias, como o Partido Popular Alemão, Partido Central e o Partido Social-Democrata Alemão. Nesse tempo, Comunistas, Nazistas e partidos ligados aos Freikorps diminuíram sua influência no Parlamento alemão. Portanto, a República de Weimar estava neutralizando os radicalismos na Alemanha e assentando as bases para um futuro político mais estável.

Essa situação danosa para os nazistas viria a terminar em 1929, com o crack da Bolsa, na Terça-Feira Negra. Essa crise econômica pode ser considerada como o principal motivo da ascensão de Hitler ao poder, pois criou a ele um cenário mais que favorável para que suas idéias fossem disseminadas e aceitas. Com o desemprego em alta, a insatisfação política aumentou e novamente começaram os protestos não só contra o governo vigente, mas também contra o Tratado de Versalhes e suas exigências. Nas eleições para o parlamento, os principais vencedores foram os pequenos partidos radicais, pulverizando as cadeiras e dificultando cada vez mais um governo majoritário. Nesse pleito os nazistas aumentaram em sete vezes seus votos em relação à eleição anterior, obtendo 6.379.672 (18,25% do total), conquistando 107 cadeiras no Parlamento, tornando-se o segundo maior partido. Os comunistas também cresceram em relação ao pleito anterior, conquistando 77 cadeiras, contra 54 do pleito de 1928.

Gráfico Eleitoral


Nos gabinetes anteriores, os Chanceleres eleitos sempre conseguiam formar uma chapa majoritária no Reichstag para garantir a governabilidade. A partir de 1929, isso se tornou cada vez mais difícil. Sem essa maioria, o chefe de governo, além de não conseguir governar bem, poderia ser destituído pelo Reichstag por uma Moção de Não-Confiança, uma ferramenta mal regulamentada pelos constituintes de Weimar. O primeiro Chanceler atingido pela crise de governabilidade foi Müller, que renunciou do cargo em março de 1930. Esse seria o último gabinete eleito por consenso no Reichstag. No seu lugar Hindenburg nomeou, após muitas discussões políticas, o economista Heinrich Brüning. Sua principal ação foi impor uma medida econômica na forma de decreto muito impopular e de caráter emergencial, evocando o Artigo 48 da Constituição de Weimar, que dava poderes ao presidente de editar uma medida sem a aprovação do Reichstag. Essa medida foi, no entanto, derrubada por uma apertada votação no Reichstag. Com a negativa parlamentar, Hindenburg dissolveu o Reichstag e convocou novas eleições, o que foi um erro político crasso. Ao convocar novas eleições, Hindenburg e Brüning comprometeram o escasso apoio político que lhes restavam. O resultado foi o fortalecimento dos nacional-socialistas, em detrimento dos partidos centros-conservadores que sustentaram os gabinetes anteriores. Como forma de neutralizar o partido nazista, somente uma coalizão liderada pelos Social-Democratas garantiu o mandato de Brüning até 1932. Ao longo de seus 26 meses de governo, Heinrich Brüning governou à base de decretos presidenciais, que, na sua maioria, tomavam decisões nada populares - embora muito eficientes -, como cortar benefícios dos desempregados e diminuir gastos públicos. Em 1932 vieram as eleições presidenciais, sendo os principais concorrentes Hitler e Hindenburg, tendo esse último ganho por uma margem pequena de votos. Aqui cabe uma ressalva: Hitler nunca venceu uma eleição majoritária na Alemanha e só chegou ao poder por meio de manobras políticas. Após a eleição de Hindenburg, Heinrich Brüning foi demitido pelo presidente e Franz von Papen foi nomeado para o cargo de Chanceler, com o intuito de formar um governo de coalizão para, de alguma forma, neutralizar o poder nazista, o que não deu certo. Hitler exigiu a Chancelaria com plenos poderes, pedido que foi negado. Embora não tenha conseguido a Chancelaria, Hitler continuou como força majoritária no cenário político alemão e forçou a demissão de Papen após oito meses de governo através de uma Moção de Não Confiança ao governo Papen imposto por Hindenburg. Essa moção foi aceita por maioria esmagadora no Reichstag, sendo que novas eleições foram convocadas. Nesse pleito, os nazistas perderam algo em torno de dois milhões de votos, embora continuasse sendo o partido de maior representação. Isso iludiu os social-democratas e comunistas, pois juntos, teoricamente, eles teriam mais votos que os Nazistas. No lugar de Von Papen, na Chancelaria, assumiu o principal conselheiro de Hindenburg e grande desafeto de Hitler, Kurt von Schleicher, que teria como meta a mesma que von Papen: estabelecer um governo com maioria no Reichstag. Incapaz de cumprir tal tarefa, ele não durou dois meses no cargo e foi demitido por Hindenburg após ter sugerido nova eleição para o Reichstag (seria a terceira no ano). Finalmente, então, chega a vez de Hitler. Aliando-se ao Partido Central de von Papen, Hitler propõe sua eleição para chefe de governo com Papen na vice-chancelaria. Embora tenha ocupado somente três ministérios, o poder de Hitler agora se estendia por toda a Alemanha e nada mais poderia impedir a escalada de terror nazista.

O plano de Hitler de tomar o poder estava praticamente concretizado. Hitler era, agora, o Chanceler da Alemanha e Hermann Göering era o Governador-Geral da Prússia, principal estado Alemão, onde estava concentrada a maior parte da população Alemã. Estar no poder executivo era crucial para os Nazistas, pois dessa maneira eles detinham o poder sobre a polícia. Á essa época era comum a transformação de comícios políticos em batalhas campais, onde os membros dos partidos se engalfinhavam rua à rua, até que a polícia chegasse ou algum grupo debandasse. Controlando a polícia, Hitler podia usá-la para prender desafetos políticos, destruir comitês partidários, proibir encontros, calar a imprensa dos outros partidos, investigar qualquer cidadão, acobertar crimes cometidos pelos próprios nazistas, coagir cidadãos, entre muitas outras práticas criminosas.À medida que a escalada de terror aumentava, um fato muito importante selou simbolicamente o destino a República de Weimar. Em 27 de fevereiro de 1933 um incêndio criminoso diminui à cinzas o imponente prédio do Reichstag alemão. Imediatamente, os nazistas culparam os comunistas e social-democratas pelo crime. Muito se discute, hoje, sobre quem deflagrou o incêndio. É impossível precisar quem realmente mandou Marinus van der Lubbe por fogo no Reichstag ou se ele fez isso por conta própria. O fato é que com o incêndio Hitler teve um pretexto perfeito para agir de forma mais agressiva.

O resultado das eleições realizadas dois meses após o incêndio foram ótimos para os nazistas. Embora institucionalmente dentro das regras, a eleição nada tinha de legal. Muitos deputados comunistas e social-democratas sequer conseguiram assumir suas cadeiras no Parlamento devido às diversas prisões. Uma semana antes do pleito, somente os nazistas podiam fazer campanha. A conseqüência disso tudo é que Hitler conseguiu a aprovação de um decreto (o Reichstag Fire Decree) que lhe dava poderes ditatoriais. Para tal, seriam necessários dois terços dos votos no Parlamento, o que foi facilmente obtido. Somente 84 deputados votaram contra, contra 441 à favor.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo Disse...

Muito bom o texto, bom mesmo.

6:46 PM  
Anonymous Anônimo Disse...

+ ou -

2:24 PM  

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