sábado, julho 30, 2005

A Ascensão de Hitler II

A Imagem de Hitler
Hoje, a percepção de que Hitler representava o caminho da guerra e da destruição não era tão óbvia. Ele era visto apenas como mais um político oportunista do que propriamente como uma ameaça ao sistema. Essa visão equivocada durou até ele assumir o poder, e as classes políticas alemãs só perceberam a dimensão do desastre tarde demais. Alguns sequer o fizeram, pois cooptados pelo partido, passaram a cooperar com os nazistas, achando que aquele era o caminho da vitória. Até mesmo figuras abertamente antinazistas colaboraram impudicamente com Hitler, como Franz von Papen e Hjalmar Schacht, brilhante economista alemão arquiteto da recuperação econômica de 1923.
Da parte dos industriais alemães - os junkers - cabe uma ressalva especial. Assustados com o socialismo do Partido Social-Democratas e apavorados com os comunistas, os grandes industriais alemães apostaram suas fichas em Hitler considerando que ele, em breve, seria defenestrado do jogo político. Estavam apenas o apoiando para futuramente estabelecer um outro governo, mais conservador.
No campo externo, a cegueira era talvez mais grave. Os alemães podem ser desculpados de tal tarefa, pois a partir de março de 1933 a imprensa livre deixou de existir. Nos demais países democráticos da Europa, no entanto, reinava a mais absurda simpatia pelo nazismo alemão. Nesse rol de equivocados, figuram desde pessoas pretensamente esclarecidas á líderes políticos que tinham projetos totalmente antagônicos ao dos alemães. Voltaire Schilling, na análise sobre a Inglaterra deixa bem claro a que ponto isso chegou:

O antinazismo na Grã-Bretanha dos anos 30 não contava com a unanimidade em meio a sua elite. Longe disso. Se bem que as motivações daqueles que simpatizavam com Hitler eram as mais diversas, foi significativo o elevado número das personalidades das altas esferas de Londres, das finanças, do comércio, da política, e mesmo das artes, que devotaram apoio e simpatia ao que se passava na Alemanha dos anos trinta.
Entre esses filonazistas encontrava-se tanto o brilhante economista Lord Keynes (que, em 1919, escrevera um verdadeiro libelo contra o Tratado de Versalhes que sufocara a Alemanha, intitulado “As conseqüências econômicas da paz”) como Lloyd George, ninguém menos do que o ex-primeiro-ministro que, durante a Primeira Guerra Mundial, mobilizara o Império Britânico na derrotar a Alemanha Imperial.
[...]
Até mesmo membros da família real britânica, como foi o caso do Duque de Windsor (Eduardo VIII, que foi forçado a abdicar em 1936) e de sua esposa Wallis Simpson, que igual visitaram Hitler em 1937, deixaram-se seduzir pelo cenário de ordem e congregação patriótica que se formara em torno do nacional-socialismo e da sua liderança.
O famoso casal manifestou publicamente o seu apoio à política alemã, entendendo-a como resultante de uma posição audaz, campeã do antibolchevismo e defensora dos valores ocidentais. Opinião essa que estava longe de ser isolada entre os integrantes da aristocracia britânica que viam em Hitler uma saudável e eficaz barreira contra Stalin.


Na França, a complacência também era forte. A própria formação da República de Vichy e a adesão de ilustres figuras a ela demonstra que os Franceses não só aceitavam a dominação alemã, mas estavam também dispostos a colaborar. Essa dualidade foi posta a prova pelos ingleses quando eles atacaram possessões francesas na África. O colaboracionismo francês poderia por em risco todo o império britânico, pois a frota francesa, a quarta maior do mundo, quase caiu na mão dos nazistas por causa da inépcia francesa.
Até mesmo Ghandi torcia por Hitler. No dia da rendição francesa, o pacifista indiano escreveu no jornal indiano Harijan de 22 de Julho: "Os alemães das futuras gerações honrarão Herr Hitler como um gênio, um homem corajoso, um organizador incomparável e muito mais”.

Evidente que tais manifestações de apoio ao nazismo não eram gratuitas. Atrás delas, existiam diversos fatores, tais como o ódio à Grã-Bretanha e a todo o sistema que ela representava, o desejo de ver o fim das plutocracias Européias, a necessidade de reparar os erros da Primeira Guerra, o medo do socialismo, dentre muitos outros. O problema desses fatores é que, pensando em reconsiderá-los, a classe intelectual e política européia compactuou quase que inteiramente com um ditador que não escondia suas famigeradas intenções. Portanto, a aceitação de Hitler na Europa e no mundo foi natural, como se estivesse surgindo ali um iminente político que, de forma competente, resolveria os problemas da Alemanha.

A Consciência

Muitos historiadores apontam a ascensão de Hitler também por motivos culturais. Antes da Primeira Guerra Mundial, a Europa vivia a Belle Èpoque, o apogeu da cultura e da expressão artística. As economias estavam em franco desenvolvimento e o avanço científico e tecnológico se fazia cada vez mais presente e permeava um futuro cada vez melhor. Reinava, portanto, um otimismo geral; um sentimento de que a Humanidade – ainda que na sua acepção eurocentrista – estava evoluindo. Com o derramamento de sangue que ocorreu na Primeira Guerra, todo esse sentimento otimista converteu-se em pessimismo, até mesmo vergonha. Toda a lógica absurda da guerra era, para alguns, o atestado de que a barbárie, de uma forma ou outra, sempre acabaria voltado e que, inexoravelmente, o destino dos Europeus era guerrear entre si. Se com todo o avanço, humano, científico, tecnológico, cultural, etc nenhum povo conseguia viver em paz com seus vizinhos, então não havia nada mais a fazer, a não ser aceitar o destino beligerante. Essa atmosfera de pessimismo refletiu em todos os Europeus e se manifestou de forma mais forte nas artes. Todos os movimentos artísticos surgidos após a Primeira Guerra negavam toda a herança renascentista que ainda existia na Europa, pois simplesmente esse tipo de arte não servia mais para os novos tempos. Boa parte dos movimentos artísticos, de alguma forma ou outra, traziam um certo pessimismo no seu conteúdo; o Dadaísmo, no seu irracionalismo proposital, chegava a ser irônico com toda a condição importante de arte; o expressionismo era ainda mais cáustico, sendo seu exemplo mais claro a pintura de Edvard Munch, o Grito. Graça Proença, em a História da Arte, dá uma dimensão do espectro artístico desse período:

É nesse contexto complexo, rico em contradições e muitas vezes angustiante que se desenvolve a arte do nosso tempo. Assim, os movimentos e as tendências artísticas, tais como Expressionismo, o Fauvismo, o Cubismo, o Futurismo, o Abstracionismo, o Dadaísmo, o Surrealismo, a Pintura Metafísica, a Op-Art e a Pop-Art expressam, de um modo ou de outro, a perplexidade do homem contemporâneo.
PROENÇA, Graça. História da Arte. São Paulo: Editora Ática. 1999. p. 153.

Pode-se dizer, portanto, que o período do entre-guerras foi um vácuo na consciência Européia, numa época sem referências sólidas e concretas. Do ponto de vista econômico, o Império Britânico já estava em forte declínio; não havia nenhuma outra potência forte e legítima; não havia, também, nenhum líder europeu de projeção, capaz de influência, de alguma forma, o cenário desolador que havia se estabelecido. Nesse contexto, o aparecimento de um líder como Hitler, por si só, já representa uma redenção quase completa. Sem nenhuma referência, culpada pelos erros da guerra e decepcionada com os caminhos que a humanidade estava tomando, todos os cidadãos europeus - desde a classe média burguesa decadente até os grandes e pretensos intelectuais – ficaram cativados e esperançosos com a vinda de Hitler, tal como os religiosos esperam seu Messias. Esse sentimento não foi uniforme e homogêneo, e o país que mais agiu dessa maneira foi, evidente, a Alemanha. Parafraseando Marx, Hitler foi o ópio do povo.

Considerações Finais

Para compreender completamente os motivos da ascensão de Hitler seria necessária uma imersão total na cultura alemã, desde seus costumes até a assimilação total da mentalidade da época. Tais tarefas são praticamente impossíveis, pois são muitas informações em tão pouco tempo. Isso, no entanto, não quer dizer que as análises sobre a época são imprecisas; pelo contrário, pode-se averiguar exatamente o que houve. O grande desafio consiste em saber porque as pessoas cometeram esse erro e dessa maneira, não repeti-lo. A Europa, felizmente, aprendeu a lição.


Guilherme Spader





Fontes
CHURCHILL, Winston Spencer. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Editora Nova Fronteira. Rio de Janeiro, 1995.
MASON, David. Churchill. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1973.
LUKACKS, John. O Duelo – Churchill x Hitler. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2002.
LUKACKS, John. Cinco dias em Londres. Ed. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 2001.
PRITCHARD, John. O Incêndio do Reichstag. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1976.
PROENÇA, Graça. História da Arte. Editora Ática. São Paulo, 1999.
SCHACHT, Hjalmar. Setenta e seis anos de minha vida. Editora 34. São Paulo, 1999.
WYKES, Alan. Hitler. Editora Renes. Rio de Janeiro, 1973.

Axis History - www.axishistory.com
Marxist Internet Archive - www.marxists.org
BBC World War Two - http://www.bbc.co.uk/history/war/wwtwo/
Conspirancy Center - http://www.joric.com/Conspiracy/Center.htm

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