domingo, julho 31, 2005

Causas da Segunda Guerra Mundial

"Never, never, never believe any war will be smooth and easy, or that anyone who embarks on the strange voyage can measure the tides and hurricanes he will encounter. The statesman who yields to war fever must realize that once the signal is given, he is no longer the master of policy but the slave of unforeseeable and uncontrollable events."
Sir Winston Churchill

Nenhum conflito influenciou tanto o mundo quanto à Segunda Guerra. No entanto, considerando a recíproca verdadeira, nenhum conflito foi tão Influenciado no mundo quanto esse. Os diversos fatores que atuaram antes, durante e depois do conflito impingiram um toque peculiar à maneira de se guerrear e nos seus reflexos na percepção de mundo na época. Portanto, se a Segunda Guerra alterou o panorama mundial, ela própria também teve seu destino alterado por uma imensidão de fatos.

O primeiro e mais influente é a unificação tardia da Alemanha. Á medida que a Europa saía do Feudalismo, o poder começava a se concentrar na figura do Rei, em detrimento do nobre feudal. Sobre a égide da nobreza real, começaram a se formar os Estados Absolutistas, sendo Portugal o primeiro deles, no Séc. XIV. A organização política do Estado é importante, pois foi ele quem financiou, posteriormente, as grandes navegações, que expandiram os horizontes do mundo e alteraram profundamente o modo de vida na Europa. Logo depois de Portugal, França, Inglaterra, Espanha e Holanda se unificaram e, assim como os portugueses, também passaram a financiar expedições mundo afora para a obtenção de metais preciosos, o padrão de poder vigente. Enquanto esses países seguiam nas suas explorações colonialistas, Alemanha ainda engatinhava na formação de seu Estado moderno e forte, pois ainda predominavam pequenos estados independentes, com pouca união política. Os primeiros passos começaram com a liga Hanseática, um importante vetor de influência na Europa setentrional. Após isso, ocorreu a fundação da Igreja Protestante, ocorrida em 1530, que resultou na Guerra dos Trinta Anos (1618). Esse conflito debilitou ainda mais os Estados germanos e quando Napoleão invadiu a região, não houve como resistir. Com a queda de Napoleão, adveio a Confederação Germânica, que aproximou mais os Estados alemães, embora esse fenômeno tenha sido bem limitado. A fundação do Império Alemão só veio com Bismarck e a vitória na Guerra Franco-Prussiana, em 1871. Embora tenha se estabelecido fortemente, o Império Alemão somente se unificava quase 300 anos depois de Portugal, Franca, Espanha e Inglaterra. Restavam, agora, poucas colônias a serem exploradas, visto que todas elas eram possessões imperiais européias. Isso foi causa de muito atrito entre a Alemanha contra as demais potências européias e consiste na principal causa econômica da Segunda Guerra, uma vez que tem suas raízes na formação do capitalismo, ainda mercantil. Nesse quesito podemos incluir também as teses do Espaço Vital e a Geopolitik alemã(mais antiga), que calcaram seus princípios a partir do estudo da Alemanha inserida no contexto europeu.

Ainda na esfera política, as causas mal-resolvidas da Primeira Guerra também foram determinantes para o início, pois criaram condições políticas turbulentas o suficiente para a ascensão de um Hitler. Parte da crise alemã se deve a incapacidade aliada de perceber seus erros na conduta de pós-guerra, no entanto, não foi somente o Tratado de Versalhes que determinou essa mudança. A mentalidade política da época, principalmente seus pensadores, pregavam que o Estado deveria ser forte, autoritário, rígido e conservador, sendo obrigação do cidadão trabalhar pela Nação. Esse ideal nacionalista não era novo, mas assumia agora um caráter muito forte, principalmente na Primeira Guerra, quando o nacionalismo das potências beligerantes havia adicionado o fator ódio ao conflito militar. A população civil, na Primeira Guerra, teve papel determinante no ímpeto com que seus países combateram. Dias antes do início das mobilizações bélicas, os desfiles militares atraiam multidões ensandecidas que veneravam os soldados e compartilhavam do ideal comum de aniquilar o inimigo. Isso ocorreu tanto na Alemanha quanto na França. Ao fim da guerra, esse ódio ainda era forte e todo esse sentimento se traduziu no Tratado de Versalhes. Ao fim da guerra, portanto, a Alemanha encontrava-se em crise, dividida e sem um governo legítimo. O surgimento da República de Weimar, do ponto de vista econômico e até político, conseguiu aplacar as pretensões de grupos radicais. Seu primeiro teste ocorreu em 1923, quando a Alemanha não conseguiu pagar suas reparações de guerra e sua moeda desvalorizou-se violentamente. Nesse ano uma série de protestos tanto de esquerda quanto de direita (putsch nazista, revolta do Rühr, putsch de Kapp) botou em cheque a República de Weimar. A ascensão de Streseman como primeiro-ministro, o estabelecimento do Rentemark - uma moeda de transição para o Reichsmark -, o Plano Dawes e a austeridade dos gabinetes sucessores contribuíram em muito pela estabilização política e econômica da Alemanha até 1929. Ao contrário do que se afirma, a República de Weimar foi eficiente econômica e politicamente e acabou sucumbindo por uma crise que derrubou o mundo todo. Até 1929, o Partido Nacional-Socialista, bem como os comunistas, vinham perdendo espaço na política alemã. Foi só com a crise que Hitler conseguiu a popularidade que lhe levou ao poder sem ter sido eleito pelo voto popular. É importante salientar que Hitler nunca foi eleito para a Presidência alemã e tornou-se primeiro-ministro após sucessivos gabinetes incompetentes. Portanto, a República de Weimar não foi propriamente à causa de Segunda Guerra. Os reais motivos foram o Tratado de Versalhes e em muito maior grau a crise de 1929, que criou condições que antes não haviam para a meteórica ascensão nazista.

No entanto, não só motivos econômicos e políticos influenciaram a guerra. Uma novidade inaugurada na Segunda Guerra foram a grande amplitude que pequenos motivos alcançaram. Os aspectos pessoais de Hitler, por exemplo, podem ter tido uma influência muito grande na conduta de guerra. É possível que a má vontade dos áulicos da Academia de Belas-Artes de Viena, quando recusaram seu pedido de ingresso, tenham em Hitler causado um ódio tão grande que o fez desistir da carreira. Claro que não se quer, aqui, por a culpa nos artistas austríacos, e sim demonstrar como um pequeno ato pode causar repercussões tão grandes. Se tivesse se tornado um artista, Hitler nunca seria primeiro-ministro.

Existem muitos outros fatores também importantes, mas que não foram determinantes a ponto de sozinhos, causarem o conflito nas proporções que ele aconteceu. Fatos isolados, por exemplo, não eram capazes de causar um conflito enorme, como hoje, talvez, seja possível. A compreensão do contexto político, no entanto, é muito mais importante do que a análise de fatos isolados, pois, afinal, uma gota de exceção não contamina um oceano inteiro de certezas.


Guilherme Spader



Referências Bibliográficas:
* KENNEDY, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Editora Campus, 1989
* VICENTINI, Cláudio. História Geral. São Paulo, 1997.

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