terça-feira, outubro 18, 2005

Heterofobia e Racismo

O racismo e o preconceito tiveram, no início do século XX até o fim da Segunda Guerra, seu verdadeiro ápice. Desde então, essas duas atitudes tornaram-se condenáveis pela sociedade e pela justiça. No entanto, de nada vale taxar preconceitos e suprimir tais sentimentos se não se sabe suas origens e porque, após anos de conscientização e várias amargas experiências, o racismo ainda encontra espaço na sociedade.

Autores abordam o racismo focado na origem do relacionamento entre homens e o aparente nascimento do racismo, ainda que inconsciente. Embora o sentimento racista tenha recebido essa nomenclatura muito recentemente, ele é praticado desde os tempos em que os Europeus passaram a explorar o mundo e se deparar com pessoas diferentes. Desde então, o envolvimento de povos com culturas tão distintas passou a ser regido por regras, e a partir delas é que se basearam todos os preconceitos aplicados aos elementos. A base dessa mentalidade baseia-se no Um – o normal, o padrão - e no Outro – o diferente, o inferior, o que não é o Um.

A necessidade de estabelecer uma diferença entre os seres é um atavismo impregnado no espírito humano; esse comportamento passou a adquirir proporções maiores quando a relação entre Um e Outro passou a ser crucial para o desenvolvimento de toda uma sociedade e de um modo de vida, ainda que incipiente. A forma que o Um encontra para tornar-se singular é diferenciar-se dos demais elementos, mas sem extingui-lo, pois isso significaria a perda de sua singularidade. Portanto, preso ao paradoxo de manter-se único, o Um necessita do Outro para sê-lo.


A relação entre Um e Outro foi, ao longo do tempo, estabelecida em níveis de superioridade e inferioridade, como forma de classificar todos os elementos. É nesse caso que surge, segundo o autor, a necessidade ou a justificativa do Um de subjugar e oprimir o Outro. O exemplo mais claro dessa relação de superioridade foi a perseguição aos judeus que culminou no Holocausto. Baseado em teorias científicas que justificavam sua superioridade, o pretenso arianismo preconizava a aniquilação total dos povos inferiores (eslavos, semitas, etc.). Manifestava-se, portanto, o Um na forma de opressor exercendo sua superioridade sobre o Outro, inferior, diferente.
As péssimas experiências racistas ocorridas ao longo do século incentivaram o surgimento de discursos anti-racistas como forma de combater esse mal. Ainda que perdido e sem uma determinada meta, esse discurso adquiriu grandes proporções e permeia toda a mentalidade atual. A principal justificativa anti-racista elimina o mais forte atavismo do racismo: a diferença entre os elementos. O conceito de raça, usado ao longo do século XX, começou a ser derrubado na década de 70 e hoje é praticamente como uma regra. Essa terminologia prega que não há nenhuma diferença entre qualquer grupo humano e mesmo o conceito de etnia fica cientificamente comprometido. Segundo estudiosos, essa nova teoria não elimina o principal problema, pois inegavelmente existe uma diferença, positiva ou não, importante ou não.
Embora o racismo seja tema freqüente de estudos e teses, suas principais motivações ainda são um desafio a ser superado. A constatação de que o racismo surge na formação intelectual de um indivíduo pode ser um caminho para a explicação de suas razões, bem como uma forma de combatê-lo. Permanece, no entanto, a triste de sina de superar um atavismo de bilhões de anos.

1 Comentários:

Blogger João Carlos Disse...

Uma boa fonte para as motivações do "racismo" e da "xenofobia" podem ser encontrada na obra Novum Organum (1620) de Francis Bacon. Nela, ele propõe a existência dos quatro "ídolos" que distorcem o raciocínio de qualquer pessoa:
Os "Ídolos da Tribo" (Idola Tribus) que se baseia no mores (costumes) de uma tribo/etnia e que se traduz no raciocínio: "nosso modo é o certo; o que for diferente, é errado".
Os "Ídolos da Caverna" (Idola Specus) que é uma individualização dos "Ídolos da Tribo", as opiniões pessoais de cada indivíduo, que se traduzem em: "eu penso desta forma; quem pensa de outra, está errado".
Os "Ídolos do Mercado" (Idola Fori) que decorrem da estrutura linguística na qual a pessoa se habituou a raciocinar. Quem domina mais de um idioma, sabe que existem diversas palavras e expressões intraduzíveis, que decorrem do que se convencionou chamar de "bagagem cultural". Se traduz em: "eu não entendo essa idéia, portanto ela não tem significado".
Por fim, os "Ídolos do Teatro" (Idola Theatri) que são as formas de pensamento tipo "todo o mundo sabe que...", ou, dito de outra forma, a aceitação sem crítica das idéias propaladas pelas "autoridades reconhecidas".
Junte todos esses "Ídolos" e você encontrará todas as sementes para que a xenofobia e o racismo sejam motivações tão fortes e particularmente arraigadas, principalmente nas camadas menos instruídas das populações.

5:53 PM  

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