sexta-feira, novembro 11, 2005

Um processo imbecilizante chamado vestibular

Escrevo esse artigo em uma sexta feira, após completar aproximadamente dez horas de estudo na semana somente sobre geometria analítica. Foram 193 exercícios de toda minha apostila, somado a mais alguns exemplos feitos em aula e mais outras questões de vestibulares anteriores.

Ao longo da semana, estudei também zoologia e o Reino Animalia, desde as características gerais de cada filo até os detalhes mais avançados, como a glândula uropigiana presente nas aves e a importância da linha lateral para o peixe. Outro tema que tratei de estudar foi a formação geológica do Rio Grande do Sul e também eletrólise, com foco na eletrólise aquosa.

Todo esse estudo está sendo feito para o vestibular de 2006 da UFRGS, onde meus conhecimentos serão testados. Junto comigo, aproximadamente 3000 candidatos estarão competindo por apenas 140 vagas.

O mais curioso de tudo é o curso que disputo. Não se trata de nenhuma área biológica, bem como dista anos-luz de qualquer matemática. Da mesma forma, sequer conhece a química e da física pouco houve falar. Trata-se do Direito.

É simplesmente broxante estudar um milhão de coisas sabendo que não vai usar quase nada disso. E o que você realmente precisa no Direito, que seria, partindo do vestibular, História, Português, Redação e alguma geografia política representam uma pequena parte de todo o desempenho, ofuscada por aprofundamentos extremamente avançados em física, matemática e química.

Muito se argumenta que embora a pessoa não vá mais usar o conhecimento adquirido, é necessário que ela seja testada de forma ampla, avaliando sua capacidade cognitiva. Ou seja, estaria aprendendo por aprender, apenas para ser avaliado nesse quesito. De fato, não discordo disso; acho válido, no entanto, isso deve ser usado com moderação. As coisas têm chegado a níveis imbecilizantes de testar o candidato, apelando para formas de avaliação patéticas.

Um exemplo disso é usar sinônimos inimágináveis para coisas triviais. Em uma questão de química, arrotar foi denominado eructação. Em reações eletroquímicas, ao invés de se acumularem em placas, os átomos evoluiriam e o singelo plano cartesiano vira sistema ortogonal de retas. Enfim, por ae seguem as empulhações que acabam tornando tudo uma questão de decorebas.

O pior disso tudo é que o processo avaliativo acaba não selecionando totalmente os melhores. Muitos professores já comentaram isso em aula: todo ano uma penca de pretendentes às vagas de humanas deixa de cursar uma faculdade por não dominarem noções de exatas, o que é um absurdo.

Mas mesmo eles não tem noção do processo todo. O vestibular que nossos professores prestaram foram para os cursos pouco concorridos que são as matérias do currículo escolar, como matemática, física, química, história, biologia, etc. Quem passa nos cursos mais difíceis como medicinas, odontos, direito, ciências da computação, nunca vai acabar dando aula em cursinhos.

No Brasil existem inúmeras faculdades focadas nas áreas das exatas que não tem no seu vestibular provas de História, Literatura, Geografia, Biologia, etc. É óbvio: a um engenheiro esses conhecimentos são desnecessários. No entanto, o oposto não ocorre: as aáreas humanas são penalizadas com um conhecimento de exatas que só atrapalha na hora da avaliação.

Ao invés de aprimorar o vestibular ou melhorar o ensino básico(como alegam as bancas se defendendo do mau desempenho dos pretendentes), a solução disso tudo é simplesmente aumentar as vagas das universidades públicas ou pagar a faculdade de quem se propõe a se formar no ensino superior. Provas dispostas a selecionar um número gigantesco de pretendentes para um ínfimo número de vagas só beneficia os mais ricos, que tem dinheiro para estudar a vida toda em uma universidade particular e ao fim, cursar um pré-vestibular caríssimo que vai lhe permitir passar na prova.

Quem enriquece mesmo são os donos de cursinho. Sequer o ensino médio ou a educação em geral se beneficia desse proceso. Quem consegue passar no fim acaba achando justa toda essa avaliação e acaba apoiando a perpetuação de um sistema extremamente elitista.

Milhares de pessoas deixam de fazer faculdade por que, sendo barradas às universidades que deveriam ser publicas, acabam tendo que cursar universidades particulares muitas vezes caras e de baixa qualidade. Como a maioria não tem dinheiro para isso, acaba não cursando nada e ficando à margem do mercado de trabalho.

Quem resolver criticar essa situação será chamado de recalcado, pois não passará de um frustrado incompetente que, não tendo inteligência o suficiante para passar na avaliação, acaba se voltando contra a avaliação.

E tudo continua na mesma...

3 Comentários:

Blogger João Carlos Disse...

Tchê! Tu já se deu conta de que, mesmo em português, metade do que tu aprendes não vai te servir de nada? Que a matéria "Língua Portuguesa" não te ensina a escrever, a alinhavar idéias de maneira lógica de maneira a que te faças entender por alguém que leia teus escritos?
Que importância pode ter que determinado poeta tenha sido gongorista ou pós-moderno?
Todo o sistema de ensino é voltado para dar emprego a professores e muita grana para cursinhos de vestibular. Se tu aprendes algo, foi por descuido...
Vais entrar para uma Faculdade de Direito para sair dela com um "canudo" que te dê o direito de prestar o concurso da OAB (ou, se fores mais ajuizado, no segundo ano largas aquela porqueira e vais fazer o Cursinho para o Vestibular do Instituto Rio Branco).
Se o ensino não fosse uma triste farsa, de onde achas que saem todos os imbecís diplomados que vês por aí?...

6:45 PM  
Anonymous ghusky Disse...

Caramba, gostaria de poder comentar a altura.
Mas, "me contento", ao mesmo tempo, abismado, lendo o que vocês escrevem.
Agradeço, por me ensinarem a pensar, de outra maneira, muitas vezes.
--//--
Mas, como João diz, boa parte do que aprendemos nunca servirá a coisa alguma e, se aprendemos verdadeiramente, é "por descuido".

12:46 PM  
Anonymous gilmara santos Disse...

td que vc falou, nao passa da pura verdade. Provas como essas pouco ou nada avalia, sao provas que nada provam.

8:11 AM  

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