sábado, maio 13, 2006

A Sociologia no Brasil

Não se pode conceber o exato momento em que a Sociologia surgiu no Brasil, pois a inserção dessa nova ciência ocorreu de forma gradual e por vezes de forma inconsciente. A vinda da Sociologia ao Brasil está ligada às transformações sócios-políticas ocorridas na Europa. O desenvolvimento, consolidação e reconhecimento do capitalismo como sistema econômico – no caso, em sua fase monopolista –, a ascenção da burguesia nas classes sociais, o processo de urbanização brasileiro e a Europa como referência cultural e intelectual fez com que a Sociologia chegasse ao Brasil.
Os primeiros pensadores brasileiros nessa área não foram propriamente sociólogos, mas deixaram sua marca nos estudos da sociedade brasileira. Os Sertões, de Euclides da Cunha e os livros de Aluísio de Azevedo, notadamente o Cortiço, são obras que abordam diretamente a questão social no Brasil. A referência de pensadores europeus nessas obras é clara; no romance O Cortiço, Aluísio de Azevedo, o determinismo do meio é exarcebado na trama que se desenvolve em torno de um conjunto de habitações no Rio de Janeiro, onde personagens de diferentes origens e personalidades acabam assemelhando-se tanto em virtudes como em vícios em pura e única razão do meio em que vivem.
Esse período que antecedeu a Primeira Guerra Mundial poderia ser considerado a origem do pensamento sociológico no Brasil, embora ainda sem definição, propósito e objetivo claros. Ainda assim, as condições existentes no período seriam cruciais para o florescimento de teóricos que, anos depois, focalizariam seus estudos com o foco na Sociologia, mesmo sem formação científica.

O advento da Sociologia no Brasil

A Sociologia como matéria na classe escolar é decorrência de uma reforma do ensino brasileiro, promovida em 1925 pelo médico Juvenil da Rocha Vaz, que estabeleceu a sociologia como cadeira da formação clássica. Muitas escolas surgiram com a sociologia no ensino, mas essa mudança só atingia o que hoje é conhecido como Ensino Médio.
No entanto, não demorou muito para a Sociologia alcançar um nível maior, o ensino superior. Na início década de 30, surgiram três centros de estudo universitários; dois em São Paulo e um no Rio de Janeiro. Dessa maneira, os trabalhos intelectuais de pensadores brasileiros da área – Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Fernando de Azevedo, Sérgio Buarque de Holanda – passaram a aparecer no cenário nacional, aprimorando o debate sociológico e trazendo-o para a esfera científica e nela estabelecendo, inclusive, objetivos e metas para o pensamento sociológico, que era agir para a mudança e modernização de uma estrutura social arcaica.
As primeiras escolas superiores buscaram no exterior professores que viriam a preparar os primeiros sociólogos brasileiros. A Escola Livre de Sociologia e Política, de São Paulo, recebeu a influência da sociologia norte-americana através dos Profs. Donald Pierson, Radcliff-Brown (britânico), Horace Davis, Samuel Lowrie, entre outros. Na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP predominou, inicialmente, a influência francesa de professores como Roger Bastide, Lévi-Strauss, Fernand Braudel, Georges Gurvitch, Paul Arbousse-Bastide, Jacques Lambert, entre outros.
Na década de 30 e 40, esses professores formariam a primeira geração de sociólogos brasileiros, além de consolidar a atividade no Brasil. Além disso, foram definidos os rumos da Sociologia brasileira e atuou de forma importante na formação das gerações seguintes. Da primeira geração de intelectuais destacaram-se, entre outros, Florestan Fernandes, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Aziz Simão, Antonio Candido, Gilda de Mello e Souza e Rui Galvão, em São Paulo, e Guerreiro Ramos e Hélio Jaguaribe, no Rio de Janeiro.

Primeira Geração – Florestan Fernandes

O pensamento da primeira geração e os estudos desenvolvidos posteriormente tem a marca e influência predominante de Florestan Fernandes, que se formou na USP e foi aluno de Roger Bastide e Fernando de Azevedo. Florestan, em sua atividade, foi um dos poucos intelectuais que conseguiu aliar o trabalho teórico-científico rigoroso com o engajamento político, tendo sempre se colocado como um sociólogo militante. Em torno dele, formou-se um núcleo de pensadores que viriam a formar o cerne do pensamento sociológico da USP, que, posteriormente, agregaria sociólogos da segunda geração, entre eles Fernando Henrique Cardoso.
O traço mais marcante desse estudo trata da condição de capitalismo dependente e a condição de país subdesenvolvido. Ao contrário de outros pensadores, Florestan, ao contrário de considerar essa condição um estágio para o desenvolvimento, caracterizou o subdesenvolvimento como uma formação histórica peculiar, com traços nítidos e talvez definitivos. Segundo Celso Frederico, para Florestan, “a peculidariedade da formação social brasileira deixou de herança ‘uma sociedade civil não civilizada’, uma burguesia débil, incapaz de propor um projeto nacional e ampliar a democracia”. Dessa maneira, ao invés de uma revolução burguesa clássica deu-se uma transformação diferente, com as classes dominantes acomodadas e concebidas em torno de uma democracia restrita, com todos os seus subprodutos (patrimonialismo, mandonismo, paternalismo, clientelismo e fisiologismo político).
Em relação a essa ordem social brasileira, Florestan adotou uma prática intelectual/política que lhe permitisse transformar a sociedade, sempre com o objetivo de abrir ou aprofundar rupturas com a ordem capitalista vigente. Ao contrário de outros pensadores nacionalistas da década de 50, Florestan não via sucesso no desenvolvimento econômico nacional dentro da ordem capitalista e sim preconizava o rompimento com ela.
A crise do capitalismo dependente brasileiro começou a ocorrer na década de 50 e seu fim culminaria no golpe militar de 64, que, que representou a opção de desenvolvimento com segurança para o capital. Essa opção também significou o fim virtual da produção sociológica brasileira. Como um dos eminentes pensadores da realidade brasileira, Florestan Fernandes foi um dos primeiros sociólogos a sofrer com a repressão do regime militar.

Segunda Geração – Fernando Henrique Cardoso

Após o golpe de 1964 e o advento do Regime Militar, inúmeros sociólogos foram perseguidos e aposentados pelos militares. Isso influenciou, atrapalhou e até extinguiu as discussões então em andamento.
Destaca-se, na época, Fernando Henrique Cardoso, que desenvolveu, junto com Enzo Faletto, a Teoria da Dependência, que não é a mesma abordada anteriormente por Florestan Fernandes, o capitalismo dependente. A tese abordava a relação de subordinação e dependência dos países subdesenvolvidos – as economias periféricas – aos países desenvolvidos – as economias centrais.
Dentre as várias considerações pertinentes dessa teoria, destaca-se a controversa argumentação de que a dependência econômica, por si só, não era um impedimento ao desenvolvimento econômico dos países periféricos. Além disso, apontava que os países, através de mudanças internas, podiam se integrar à ordem econômica vigente. Tudo isso, no entanto, não estava diretamente ligado ao desenvolvimento social e a distribuição de riqueza, ou seja, os países subdesenvolvidos ainda assim poderiam crescer, mas o crescimento econômico não implicava nas melhorias sociais esperadas tampouco na extinção de um modelo de país subdesenvolvido. Isso, mais do que nunca, é válido para a realidade brasileira de hoje, uma vez que nosso modelo de Estado e de Sociedade não necessita apenas de crescimento econômico e sim de mudanças mais profundas na ordem social e principalmente estatal.

A Sociologia após a abertura política

Na década de 80, com a abertura política, a sociologia brasileira refloresceu. Logo no início, ocorreu a regulamentação da profissão. Com a evolução acelerada da conjuntura brasileira, a década de 80 foi o ponto onde diversos caminhos começaram a ser abertos e trilhados por diferentes correntes político-ideológicas.
Além dos já existentes centros de estudos e universidades, surgiram dois novos centros, que congregariam boa parte dos novos sociólogos e pensadores. No Cebrap, fundado em 1969, as diferentes convicções ideológicas e as divergências políticas geraram, de início, dois outros centros de estudo: o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (Cedec), e Instituto de Estudos Sociais, Econômicos e Políticos (Idesp). O primeiro, fundado por Francisco Weffort e José Álvaro Moisés, voltou-se mais para estudos críticos e políticos, de onde surgiu grande parte da corrente intelectual que fundaria o Partido dos Trabalhadores, Já o Idesp, liderado por Bolívar Lamounier, deixou as discussões ideológicas em segundo plano e se centrou em pesquisas sobre eventos políticos e eleitorais, de cunho pragmático-descritivo.
Na década de 90, o estudo da sociologia enveredou, também, para a análise microssociológicas, abordando objetos delimitados e de dimensão específica, inserido em um contexto conhecido e também delimitado. Por outro lado, outros sociólogos, como Octávio Ianni, abordaram a problemática social brasileira, que envolve, entre tantos fatores, o processo de globalização.
Em relação a ele, a sociologia deu atenção especial em perceber a relação disso com as condições sociais e distribuição de riqueza no Brasil, uma marca indelével na sociedade brasileira que atravessa décadas, estudos e regimes.
É inegável que a globalização representa um desafio à sociologia, pois torna a realidade muito mais complexa e difícil de ser analisada, além de abalar as referências clássicas dos sociólogos, como Marx e Weber. Nesse sentido, tudo do que é novo necessita ser repensado e rediscutido, tendo a sociologia a característica de disciplina da modernidade que permite a reflexão sobre as novas relações sociais.

6 Comentários:

Blogger Tathiana Guimarães Disse...

Desculpe a invasão..
Adorei seu blog. Muito coerente as reflexões.

5:02 PM  
Anonymous Anônimo Disse...

kd o artigo sobre "globalização e sociologia"?
=/

8:22 AM  
Anonymous Tanize Disse...

De forma muito breve foi possivel rever a historia da consolidacao da ciencia sociologia no Brasil. Assunto sobre o qual falta muito material analitico, direto e suscinto na internet. Obrigada pelas reflexoes.

1:49 PM  
Anonymous Anônimo Disse...

Interessante, mas a sociologia não começou com a institucionalização, isto é coisa de uma certo proselitismo acadêmico que andou em alta, a sociologia já está na segunda metade do sec. XIX, com Nabuco, Silvio Romero, Capistrano de Abreu...Revisemos o tema...

5:28 PM  
Blogger Louise Cardeal Disse...

Muito obrigada!
Assim entendo mais de um assunto que preciso tanto saber...

=D

4:27 AM  
Blogger Aristides Disse...

muito bom, adorei otimo conteudo p/ futuros sociologos assim como eu ...

12:59 PM  

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